31 de jul de 2016

Bálcãs - As lutas entre Erdogan e as escolas gulenistas provocam novas tensões na Bósnia

Fethullah Gulen



Balkan Insight, 31 de julho de 2016. 



Por Rodolfo Toe


A luta contra escolas operadas pelo alegado líder do golpe turco poderia provocar novos conflitos e agravar divisões na Bósnia de acordo com especialistas. 

A briga entre as escolas bósnias ligadas ao Fethullah Gulen, e o suposto líder do recente golpe de estado turco, e autoridades turcas em Ancara poderia exacerbar divisões na Bósnia, disse um especialista em relações internacionais a BIRN.   

“A importação de conflitos de outros países para a Bósnia e a obrigação dos cidadãos de dar o seu apoio a um dos lados irá criar divisões na sociedade”, Esref Kenan Rasidagic, professor de relações internacionais na Universidade de Sarajevo, disse a BIRN. 


Mas denúncias do governo turco sobre as escolas aumentaram significativamente após a tentativa de golpe militar em 15 de julho. O presidente turco Erdogan afirmou que Gulen e seus seguidores são responsáveis pelo golpe

Escolas relacionadas com o movimento Hizmet têm operado na Bósnia desde o fim da guerra de 1990, segundo o site do movimento. 

Após a tentativa de golpe na Turquia, os meios [de comunicação] bósnios especularam que estas instituições estão atualmente operando sob uma organização educacional ‘guarda-chuva’ chamada “Bosna Sema”, que inclui 15 escolas em várias cidades bósnias, entre elas Sarajevo, Zenica, Bihac, Tuzla e Mostar. Bosna Sema também opera em uma universidade internacional em Sarajevo. 

Na semana passada, o embaixador turco para a Bósnia, Cihad Erginay pediu às autoridades locais para tomarem medidas contra estas escolas, sem mencionar explicitamente os seus nomes. 

“Esperamos que os governos de todo o mundo lutem contra essa organização terrorista, porque vimos que... Eles se infiltraram em instituições do Estado; e [para combater este fenômeno] este é um dever tanto das instituições do Estado quanto dos pais [que enviam os seus filhos para estas escolas]”, reivindicou Erginay. 

Erginay afirmou que alguns países já tomaram algumas medidas contra essas instituições de ensino, e instou o governo bósnio a fazer o mesmo. O Azerbaijão e Uzbequistão estão entre aqueles que agiram contra as escolas de acordo com a agência de notícias croata Hina. 

“Esta organização não ameaça apenas a Turquia”, disse Erginay num canal de televisão baseado em Sarajevo, Face TV. 

Discussões sobre as escolas de Gulen também se espalharam pela Croácia. O embaixador turco para a Croácia Ahmet Tuta disse a New TV na segunda-feira que partes da “organização terrorista” de Gulen estavam presentes na Croácia. 

“Ele tem uma escola de língua estrangeira que trabalha lá [na Croácia], e que também está tentando organizar outras atividades, mas as autoridades croatas são muito cuidadosas e veem o que fazem. Espero que esta cooperação entre as autoridades croatas e turcas continue”, disse Tuta, acrescentando: “Todos os relatórios de inteligência e informações foram enviadas para as autoridades croatas em conformidade.”

Enquanto autoridades bósnias não reagiram às palavras de Erginay, alguns membros do principal partido Bosniak de Ação Democrática (DAS), que desenvolveu fortes laços com Erdogan nos últimos anos, advertiu que as escolas que seguirem os princípios de Gulen podem representar um problema para o país. 

“Nós não precisamos dessas escolas, temos nosso próprio sistema”, Salmir Kaplan, um membro do DAS do Parlamento da Federação da Bósnia e Herzegovina, uma das duas entidades da Bósnia, disse à agência de notícias turca Anadolu. Keplan argumentou que a melhor solução seria fechar as escolas. 

Bosna Sema, em uma declaração escrita, reconheceu que sua fundação foi inspirada por Gulen, mas negou quaisquer conexões atuais com ele. 

“As escolas Bosna Sema são escolas bósnias que operam com o devido respeito aos regulamentos locais”, Orhan Hadzagic, chefe de relações públicas da Bosna Sema, disse a BIRN, salientando que “fora a ideia inicial na qual se espelhou, a associação não tem mais nenhuma ligação com Gulen”. 

Hadzagic também descreveu a pressão de organismos turcos como, “uma ação para interferir nos assuntos internos do nosso país”, e ele pediu ao governo bósnio que reaja. 

Esref Kenan Rasidagic concordou que as alegadas escolas conectadas a Gulen são reguladas de acordo com as leis da Bósnia, e que tentar fechá-las seria muito difícil. 

“Em primeiro lugar, elas não são escolas turcas, elas operam totalmente sob a lei da Bósnia, em segundo lugar, não seria fácil para as autoridades bósnias simplesmente fechá-las, uma vez que o sistema educacional é muito fragmentado em nosso país”, disse Rasidagic.  

Ele também apontou que, em qualquer caso, as autoridades bósnias devem agir independentemente das disputas políticas em outros países. 

“Se decidirmos fechar as escolas que fazem parte do movimento de Gulen na Bósnia, o que vai acontecer no outro dia, o que muda no governo da Turquia? Deveríamos fechar as outras instituições educacionais turcas também?” concluiu. 


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